Entropia 

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Um trabalho coletivo, assinado por três nomes com formações e bagagens musicais muito distintas, se propõe a singrar as águas generosas da canção com aquela delicadeza que, volta e meia alguém diagnostica, pessimista, está se perdendo. O Projeto 1 de Edu Aguiar, Mingo Araújo e Camila Matoso não está aí para rivalizar com empreitadas estreladas por nomes que lotam estádios. Só quer mostrar que faz música popular brasileira de qualidade também – autoral e sempre norteada por lirismo e boas doses da sofisticação que marca historicamente essa tal MPB.  “Entropia” apresenta quatorze composições inteiramente inéditas (incluindo o tema instrumental que dá título ao disco) com um raro padrão de qualidade em arranjos e execução – o que, dentro do panorama atual, não é pouco.

O potiguar Mingo Araújo, talento autodidata que ganhou o mundo, depois que participou do clássico álbum “The Rhythm of the Saints”, de Paul Simon (1989), fornece, muito mais do que base rítmica, todo um firmamento de climas, microclimas e ambientações a partir dos arranjos de percussão e do rico arsenal apresentado.  Ele traz para as 14 faixas o mesmo rigor aplicado em trabalhos com o grupo Cama de Gato e Edu Lobo, e também a criatividade apoiada nas raízes nordestinas que exibiu em discos como “Mutirão da Vida”, de Xangai (1984).

Release por Pedro Só 

Esse trabalho específico do violeiro baiano é uma das múltiplas referências utilizadas pelo carioca Edu Aguiar, produtor, arranjador e autor das treze canções (e mais o tema instrumental que fecha e dá nome ao disco, “Entropia”). Se em seu disco anterior, “Dias de Blumer”, lançado sob o pseudônimo Filhos de Platão em 2013, Edu reverenciava a geração de músicos e letristas que gestou, no Rio de Janeiro, nas esquinas entre Pernambuco, rock e MPB, o cultuado “Baque solto”, de Lenine e Lula Queiroga, aqui ele e se espraia em mais direções.

De maneira desconcertantemente coerente, avança também por sotaques ibéricos e explora uma conexão afetiva com a estética do frio do Uruguai, país com o qual Edu possui fortes laços há quatro décadas. “Adelante”, gravada em Montevidéu, é parceria dele com a poeta Emmi Finozzi (uruguaia radicada na Catalunha), e traz um “sabor de carretera da Sudamérica” profunda a partir das contribuições da cantora de tangos Gabriela Morgare, de Carlos Gómez (violões de aço) e de Valentina Estol (flautas).

Mas o Projeto 1 é, acima de tudo, Brasil, presente no sotaque mesmo quando há influências folk, blues ou reggae. Já na primeira faixa de “Entropia”, “Eu”, uma bossa nova quase ortodoxa, o toque elegante e brasileiríssimo de André Siqueira mostra porque o músico gaúcho foi o vencedor do Prêmio Chico Mário de Violão Popular 2018. E o impacto instantâneo é garantido pela voz de Camila Matoso, que valoriza a melodia e a ironia da letra “autodepreciativa” de Alexandre Lemos.

A cantora e atriz carioca - criada no Rio Grande do Norte – mostra segurança e um timbre com personalidade, para além dos pendores pop que exibiu, ao ser revelada no programa “The Voice” e no trabalho no bloco carnavalesco Ê Saudade. É uma bela surpresa do disco – e está em 11 das faixas.

Camila só não canta na instrumental “Entropia” e em “Humano” (em “Adelante”, faz apenas um vocalise incidental), que traz uma das participações especiais de mais peso no álbum: Zélia Duncan. Zélia se arrisca fora de seu tom “natural”, em uma daquelas composições de levantar ginásio, do tipo que, nos tempos da MPB de festival, despontaria como favorita do público. O parceiro de Edu Aguiar nessa é Ivan Santos, o paraibano-pernambucano coautor com Lenine de “Ninguém faz ideia” (Grammy Latino 2005 de Melhor Canção Brasileira).

Geraldo Azevedo faz dueto com Camila em “Minuto de silêncio”, um poema do paraibano Bráulio Tavares – guru e “ideólogo” da turma do “Baque Solto” -, que Edu musicou e adaptou. O lirismo é valorizado pela slide de André Siqueira, em diálogo com a viola de 10 e o violão de cordas de aço de Carlos Martau, ex-colaborador de Cássia Eller, que responde pela concepção de violões em oito das faixas.

Fred Martins, Prêmio Visa de Melhor Compositor Brasileiro em 2006, gravado por Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Maria Rita, participa de uma das pérolas do repertório do disco, “Tá na moda”, parceria de Edu com o grande Luiz Tatit, de legendária contribuição ao grupo Rumo.  “Tá uma onda de me entristecer/ Como coisa natural/ Tenho medo disso aí crescer/ Numa escala universal”, observa a letra, com a marca autoral do paulistano.

Eugenio Dale, cantor, produtor e compositor (parceiro de, entre outros, Egberto Gismonti) participa dividindo com Camila as vozes de “Violência banal”, composição de Edu dedicada a Marcelo Yuka.  Joana Queiroz, responsável pelos arranjos de sopros do disco, injeta alma à faixa com sax tenor e clarinete.

Em “Mundo insano”, partindo de referências propostas por Edu, como o trabalho de Nivaldo Ornelas no Clube da Esquina, o clarinete de Joana divide com o fretless do virtuoso André Gomes (da banda de Pepeu, ex-Cheiro de Vida) as atenções. E embala os versos comoventes, dedicados ao poeta, jornalista e personagem do underground niteroiense Manoel Gomes, morto em 2018, que podem ser resumidos no trecho: “Tempos difíceis para os sonhadores”.

A poesia aflora sem pudores também em “Pode ser ilusão”, parceria de Edu com Roberto Bozzetti que conta com belo arranjo. O violoncelo de Janaína Salles tensiona e emociona, dialogando com o violão de André Siqueira até o final, que inclui um inesperado comentário melancólico da cuíca de Mingo Araújo. Detalhes assim fazem toda a diferença.

Concepção semelhante de pop camerístico encanta em “Até fazer tudo mudar”, parceria de Edu com Suely Mesquita, novamente narrada a partir do cello de Janaína Salles, com harmonia simples e letra forte, concisa. A canção é dedicada a Marielle Franco.

O pseudoblues ou quase blues “Sem coerção” é parceria com um talento emergente, o letrista poeta paraibano Adriano Nunes (que tem entre seus apreciadores Frejat e Antonio Cicero), uma joia de brilho ampliado pelo piano de Itamar Assiere – e pela interpretação na medida de Camila.

“Quando fiz arquitetura aprendi que tão importante quanto o espaço ocupado é o espaço livre”, comenta Edu, um músico tardio, que se dedicou ao estudo (com Antonio Adolfo) apenas depois da maturidade. Essa lição foi levada para todo o disco, com a clareza dos arranjos e o despojamento exigido por natureza em incursões folk com notas de reggae como “Se (Há) Mar É” (parceria com a jovem poeta niteroiense Li Vereza) ou no reggae com notas de soul “Tantas Formas” (com Alexandre Lemos), ancorado no baixo de Roger Negão.

Como descreve a letra de Carlos Rennó, parceiro de Edu na delicada faixa “Força que vem do vento”, neste álbum, a música popular brasileira tem seu repertório renovado com o sarrafo lá no alto: “Força nova que é gerada/(...) e que sempre se renova/ e nunca tem fim”. A música popular brasileira, como se sabe, pode ser simples ou minimalista, mas não pode ser pouco.

CLIPPING/MATÉRIAS 

Correio da Manhã

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Zero Hora